Tabela periódica

Lítio (Li)

Howard Birdsong Compilado a partir de fontes primárias IUPAC, NIST e PubChem

O lítio é o elemento 3, de símbolo Li, configuração eletrónica [He] 2s¹ e massa atómica padrão compreendida entre 6,938 e 6,997 u. É o metal menos denso que existe, com 0,534 g/cm³, e flutua sobre a água enquanto reage com ela.

Por que é que a massa atómica do lítio é um intervalo?

A IUPAC publica para o lítio não um número mas uma gama: de 6,938 a 6,997 u. É o intervalo relativo mais largo de toda a tabela periódica, e a sua origem não é natural mas industrial.

O lítio natural tem dois isótopos estáveis: lítio 6, cerca de 7,6 %, e lítio 7, o restante. A diferença de massa entre ambos é grande em termos relativos, e uma variação pequena na proporção desloca notavelmente a média.

Durante os anos cinquenta e sessenta, os Estados Unidos e a União Soviética separaram lítio 6 à escala de milhares de toneladas. O lítio 6 bombardeado com neutrões produz trítio, e o trítio é o combustível das armas termonucleares. Interessa também à fusão controlada pela mesma razão.

O material sobrante dessa separação — lítio empobrecido em lítio 6 — não foi deitado fora. Foi vendido como reagente de laboratório e incorporou-se na cadeia de abastecimento química mundial. Um frasco de sal de lítio comprado hoje pode provir de mineral natural ou daquele resíduo, e a sua massa atómica difere no terceiro algarismo.

Por isso a IUPAC recomenda que quem precise de precisão meça os isótopos da sua própria amostra em vez de confiar numa tabela.

O que torna especial a configuração [He] 2s¹?

Um eletrão solitário na segunda camada, sobre um núcleo de hélio completo. É a estrutura do sódio e do potássio, mas com uma diferença de escala que muda tudo.

O lítio é o mais pequeno dos alcalinos, com um raio atómico de cerca de 152 pm. Esse eletrão 2s está mais perto do núcleo e pior blindado do que nos alcalinos maiores, pelo que é retido com mais força. A energia de ionização do lítio, 520 kJ/mol, é a mais alta do seu grupo.

Daí um paradoxo aparente. O lítio é o alcalino menos reativo face à água e, ainda assim, o redutor mais potente de todos em solução aquosa: o seu potencial de elétrodo padrão é de −3,04 V, o mais negativo da tabela.

A contradição resolve-se distinguindo velocidade de termodinâmica. A reatividade face à água é cinética e depende de o metal fundir e expor superfície; o lítio funde a 180 °C e não o consegue. O potencial de elétrodo é termodinâmico e inclui a energia de hidratação do ião, que no lítio é enorme precisamente por o ião ser minúsculo e concentrar muita carga.

Esse potencial explica por que as baterias de lítio oferecem mais tensão por célula do que qualquer alternativa.

Como funciona uma bateria de lítio?

Sem metal de lítio. A expressão «bateria de lítio» faz pensar num elétrodo metálico, e nas baterias recarregáveis não existe nenhum.

O que circula é o ião Li⁺, que viaja entre dois materiais capazes de o alojar na sua estrutura. Na descarga, os iões saem do ânodo de grafite, atravessam o eletrólito e inserem-se no cátodo, tipicamente um óxido de cobalto, níquel e manganês. Ao carregar, o processo inverte-se.

O fenómeno chama-se intercalação: os iões entram entre as camadas do material sem o partir. A grafite acolhe um lítio por cada seis carbonos, e as suas lamelas afastam-se apenas o suficiente para o admitir.

Usam-se iões e não metal por segurança. O lítio metálico depositado durante a carga tende a crescer em filamentos chamados dendrites, que podem atravessar o separador e curto-circuitar a célula. As baterias de lítio metálico existem, mas não são recarregáveis.

A leveza do elemento é o que torna esta química competitiva: mover um ião de massa 7 custa muito menos do que mover um de sódio, de massa 23.

De onde se extrai?

De dois jazigos de natureza completamente distinta, com economias opostas.

As salmouras do altiplano andino — o salar de Atacama no Chile, o do Hombre Muerto na Argentina, o de Uyuni na Bolívia — contêm lítio dissolvido em águas subterrâneas salgadas. Bombeia-se para tanques pouco fundos e o sol evapora a água durante doze a dezoito meses até concentrar a salmoura. Depois precipita-se carbonato de lítio.

O processo quase não consome energia, mas é lento e depende do clima. Consome também água numa das regiões mais áridas do planeta, o que tem gerado conflitos com as comunidades locais e com a mineração do cobre.

A outra fonte é a espodumena, um silicato de lítio e alumínio extraído em minas convencionais, sobretudo na Austrália Ocidental. A rocha é torrada a 1 100 °C para alterar a sua estrutura cristalina e depois lixiviada com ácido sulfúrico. É rápido e caro em energia.

A Austrália produz hoje mais lítio do que qualquer outro país, embora as maiores reservas identificadas estejam nas salmouras sul-americanas.

Por que se usa o lítio em psiquiatria?

Descobriu-se por acaso e continua sem explicação completa.

Em 1949 o psiquiatra australiano John Cade injetava urina de doentes maníacos em cobaias à procura de uma toxina. Usou urato de lítio pela sua solubilidade e observou que os animais acalmavam. Atribuiu o efeito ao lítio e testou-o em doentes com resultados notáveis.

Os sais de lítio continuam a ser um tratamento de referência na perturbação bipolar, e há indícios de que reduzem o risco de suicídio mais do que outros estabilizadores. O mecanismo não está estabelecido: foram propostos efeitos sobre a enzima GSK-3β e sobre a sinalização do inositol, sem conclusão firme.

A margem terapêutica é estreita. A concentração útil no sangue ronda os 0,6-1,2 mmol/L, e acima de 1,5 surge toxicidade. Por isso os doentes em tratamento fazem análises periódicas, algo pouco frequente em psiquiatria.

Dados essenciais

Z
3
Atomic weight
6.94 u
Category
metal alcalino
State at 298 K
Solid
Occurrence
primordial
Discovered
1817
CAS
7439-93-2

Propriedades medidas

PropertyValueSource
Electronegativity 0.98 National Center for Biotechnology Information (NIH)
Melting point 453.65 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Boiling point 1,615 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Density stp 0.534 g/cm³ National Center for Biotechnology Information (NIH)
Atomic radius empirical 182 pm National Center for Biotechnology Information (NIH)
Ionization energy 1st 520.2 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)
Electron affinity 59.6 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)

Configuração eletrónica

2 1 Li
Noble gas notation
[He] 2s¹
Full notation
1s² 2s¹
Electrons per shell
2, 1

Isótopos

Perguntas frequentes

Por que é que o lítio de um frasco de laboratório pode ter uma massa atómica diferente da natural?

Porque durante décadas se extraiu lítio 6 à escala industrial para fabricar armas termonucleares e combustível de reatores. O resíduo empobrecido em lítio 6 foi vendido como reagente químico. Uma amostra comercial pode ter uma massa atómica de 6,94 ou de 7,00 consoante a proveniência, e essa incerteza levou a IUPAC a publicar um intervalo em vez de um valor.

Por que é que o lítio flutua na água e ao mesmo tempo reage com ela?

A sua densidade é de 0,534 g/cm³, pouco mais de metade da da água, pelo que flutua. Ao mesmo tempo reage libertando hidrogénio e hidróxido de lítio. A reação é mais lenta do que a do sódio ou do potássio porque o lítio funde a 180 °C e não atinge essa temperatura durante a reação, ao passo que o sódio funde e expõe muito mais superfície.

É o mesmo lítio o das baterias e o dos medicamentos?

O elemento é o mesmo, mas as formas químicas e as doses não têm relação. Em psiquiatria usam-se sais como o carbonato de lítio em doses de centenas de miligramas diários, com controlo da concentração no sangue porque a margem entre dose útil e tóxica é estreita. Numa bateria, o lítio circula como ião entre os elétrodos e nunca é ingerido.

De onde vem o lítio das baterias?

De duas fontes muito distintas. As salmouras do triângulo do lítio — Chile, Argentina e Bolívia — são bombeadas para tanques de evaporação onde o sol concentra o sal durante meses. Os minerais de espodumena, sobretudo na Austrália, são extraídos em mina e tratados quimicamente. As salmouras são mais baratas mas muito mais lentas; a rocha dura é rápida e mais dispendiosa em energia.

Fontes