Tabela periódica

Ouro (Au)

Howard Birdsong Compilado a partir de fontes primárias IUPAC, NIST e PubChem

O ouro é o elemento 79, de símbolo Au, configuração eletrónica [Xe] 4f¹⁴ 5d¹⁰ 6s¹ e massa atómica padrão 196,966570 u. É o metal mais maleável que existe e um dos poucos que se encontra na natureza no estado nativo.

Por que é que o ouro é amarelo?

Quase todos os metais são cinzentos ou brancos. A razão é que os seus eletrões livres refletem por igual todos os comprimentos de onda visíveis. O ouro e o cobre são as exceções, e no caso do ouro a explicação exige relatividade restrita.

A cor de um metal depende da energia necessária para promover um eletrão entre bandas. Na prata, essa transição do nível 4d para o 5s custa cerca de 3,7 eV, o que corresponde ao ultravioleta: toda a luz visível é refletida e o metal parece branco.

No ouro seria de esperar o mesmo, já que a sua estrutura eletrónica é análoga com 5d e 6s. Mas o núcleo do ouro tem 79 protões, e os eletrões 1s de um átomo assim movem-se a mais de metade da velocidade da luz.

A essa velocidade, a massa relativista do eletrão aumenta cerca de 20 %. Um eletrão mais maciço orbita mais perto do núcleo, pelo que todas as orbitais s se contraem. A contração da 6s, somada à expansão das orbitais d que ficam pior blindadas, reduz a separação entre bandas para cerca de 2,4 eV.

Essa energia corresponde à luz azul e violeta. O ouro absorve-a e reflete o resto do espetro, que percebemos como amarelo.

É um dos poucos efeitos relativistas visíveis a olho nu na vida corrente. O outro, no mesmo grupo, é o mercúrio ser líquido.

O que significa um quilate?

Uma fração em vinte e quatro avos. O ouro de 24 quilates é puro; o de 18 quilates contém 18 partes de ouro por cada 24, ou seja 75 %.

⚠️ A unidade é homónima mas distinta do quilate das gemas, que é uma massa de 200 miligramas. O das ligas é uma proporção, o das pedras um peso.

O ouro puro é demasiado mole para joalharia: risca-se e deforma-se com o uso diário. Ligá-lo endurece-o, e o metal acrescentado determina também a cor.

Acrescentar cobre dá o ouro vermelho ou rosa. Acrescentar prata dá tons mais pálidos e esverdeados. O ouro branco obtém-se com paládio ou níquel, e costuma ser revestido de ródio para conseguir o branco brilhante que se espera; esse revestimento desgasta-se e tem de ser renovado.

Os toques mais comuns são 24, 22, 18, 14 e 9 quilates consoante o mercado. A regulamentação europeia marca as peças em milésimas: 750 equivale a 18 quilates.

Como se extrai?

A maior parte do ouro encontra-se disperso em concentrações de gramas por tonelada de rocha, não em pepitas. Recuperá-lo exige química.

O processo dominante é a cianetação. O minério triturado é tratado com uma solução diluída de cianeto de sódio na presença de ar:

4 Au + 8 CN⁻ + O₂ + 2 H₂O  →  4 [Au(CN)₂]⁻ + 4 OH⁻

O cianeto estabiliza o ouro como complexo solúvel, e o oxigénio faz de oxidante. Depois recupera-se o metal adicionando zinco, que desloca o ouro da solução, ou adsorvendo-o em carvão ativado.

O método, patenteado em 1887, permite explorar jazigos de teor muito baixo e transformou a mineração do ouro. O seu inconveniente é evidente: exige manejar grandes volumes de cianeto, e as roturas de bacias de resíduos causaram catástrofes ambientais, como a do Danúbio em Baia Mare no ano 2000.

A mineração artesanal usa em vez disso mercúrio, que forma amálgama com o ouro e é depois removido por evaporação. É mais barato, muito mais poluente e expõe diretamente os mineiros; é a maior fonte de emissões de mercúrio do planeta.

Para que serve além de joalharia?

A joalharia absorve cerca de metade da procura, e o investimento boa parte do resto. O uso industrial é minoritário mas difícil de substituir.

Em eletrónica, o ouro é usado em contactos e no fio que liga um chip ao seu encapsulamento. Não é o melhor condutor — a prata e o cobre superam-no — mas é o único que não se oxida, e um contacto oxidado deixa de conduzir. A fiabilidade importa mais do que a condutividade.

Em medicina dentária empregam-se ligas de ouro pela sua inércia biológica e porque a sua dureza é parecida com a do esmalte, de modo que não desgastam o dente oposto.

Em aeroespacial, folhas de ouro de espessura micrométrica revestem superfícies para refletir o infravermelho e controlar a temperatura. Os espelhos do telescópio James Webb levam um revestimento de ouro de cerca de 100 nanómetros, porque o ouro reflete o infravermelho melhor do que o alumínio ou a prata.

Em medicina, certos compostos de ouro foram usados contra a artrite reumatoide, e as nanopartículas de ouro são um campo ativo em diagnóstico e tratamento oncológico.

Quanto ouro existe?

Todo o ouro extraído ao longo da história humana estima-se em cerca de 210 000 toneladas. Fundido num único bloco, esse ouro formaria um cubo de cerca de 22 metros de lado.

O número é pequeno precisamente porque o ouro não se destrói nem se consome. Quase todo o que foi extraído continua a existir sob alguma forma: joias, lingotes de banco central, componentes eletrónicos. Uma aliança atual pode conter átomos que passaram por uma moeda romana.

Na crosta terrestre a abundância é de cerca de 4 partes por mil milhões, o que o coloca entre os elementos mais raros. E no entanto há uma anomalia: devia haver ainda menos.

Durante a formação do planeta, o ouro é siderófilo — afim ao ferro — e deve ter-se afundado quase por completo para o núcleo com ele. O ouro acessível na crosta provém provavelmente de um bombardeamento de meteoritos posterior à formação do núcleo, há cerca de 3 900 milhões de anos.

O ouro que usamos não veio com a Terra: chegou depois.

Dados essenciais

Z
79
Atomic weight
196.97 u
Category
metal de transição
State at 298 K
Solid
Occurrence
primordial
Discovered
6000 BCE
CAS
7440-57-5

Propriedades medidas

PropertyValueSource
Electronegativity 2.54 National Center for Biotechnology Information (NIH)
Melting point 1,337.33 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Boiling point 3,129 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Density stp 19.282 g/cm³ National Center for Biotechnology Information (NIH)
Atomic radius empirical 166 pm National Center for Biotechnology Information (NIH)
Ionization energy 1st 890.2 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)
Electron affinity 222.8 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)

Configuração eletrónica

2 8 18 32 18 1 Au
Noble gas notation
[Xe] 4f¹⁴ 5d¹⁰ 6s¹
Full notation
1s² 2s² 2p⁶ 3s² 3p⁶ 3d¹⁰ 4s² 4p⁶ 4d¹⁰ 4f¹⁴ 5s² 5p⁶ 5d¹⁰ 6s¹
Electrons per shell
2, 8, 18, 32, 18, 1

Isótopos

Perguntas frequentes

Por que é que o ouro é amarelo e a prata não, se estão na mesma coluna?

Por efeitos relativistas. Num átomo tão pesado como o do ouro, os eletrões internos movem-se a mais de metade da velocidade da luz, o que aumenta a sua massa efetiva e contrai as orbitais s. Essa contração reduz a separação entre os níveis 5d e 6s para cerca de 2,4 eV, energia que corresponde à luz azul. O ouro absorve o azul e reflete o resto, e daí a cor. Na prata a separação é maior e a absorção cai no ultravioleta.

Até onde se pode laminar o ouro?

A folha de ouro comercial tem cerca de 100 nanómetros de espessura, da ordem de trezentos átomos. Com essa espessura deixa passar luz, que se vê esverdeada porque o ouro transmite o que não reflete. Um grama pode ser estendido até cobrir perto de um metro quadrado, ou esticado num fio de mais de dois quilómetros. Nenhum outro metal admite tanta deformação sem partir.

Por que não se corrói?

Porque o seu potencial de redução é muito alto, +1,50 V para o par Au³⁺/Au, o que significa que a forma oxidada é instável face à metálica. Nem o oxigénio nem a maioria dos ácidos conseguem oxidá-lo. Só o dissolve a água-régia, mistura de ácidos nítrico e clorídrico, onde o nítrico oxida e o clorídrico estabiliza o ião resultante como complexo AuCl₄⁻. Dissolvem-no também soluções de cianeto na presença de ar, e essa é a base da sua extração industrial.

De onde vem o ouro do universo?

De acontecimentos violentos. A fusão estelar ordinária não produz elementos mais pesados do que o ferro. O ouro forma-se por captura rápida de neutrões, um processo que requer densidades de neutrões extremas. A observação em 2017 da fusão de duas estrelas de neutrões, com deteção simultânea de ondas gravitacionais e de luz, confirmou que esse tipo de colisão sintetiza ouro e platina em quantidades comparáveis a várias massas terrestres.

Fontes