Por que é o melhor condutor?
A prata conduz a eletricidade melhor do que qualquer outro elemento: a sua condutividade é de 63 milhões de siemens por metro, face a 59 do cobre e 38 do alumínio.
A razão está na configuração [Kr] 4d¹⁰ 5s¹. A camada d completa e o único eletrão s exterior produzem uma banda de condução com poucos eletrões muito móveis e uma rede cristalina que os dispersa pouco.
Essa mesma estrutura dá à prata a maior condutividade térmica de todos os metais, 429 W por metro e kelvin, e a maior refletividade no visível, acima de 97 %.
E no entanto a cablagem do mundo é de cobre. A diferença de condutividade entre ambos é de 7 %, e a diferença de preço é de duas ordens de grandeza. Ninguém cabla uma casa com prata para ganhar 7 %.
A prata reserva-se para onde essa margem importa ou onde o volume é pequeno: contactos de relés de alta fiabilidade, conectores de radiofrequência, guias de onda, pistas condutoras impressas. Em eletrónica de alta frequência a corrente circula pela superfície do condutor, e por vezes basta pratear um condutor de cobre.
⚠️ A refletividade da prata cai bruscamente no ultravioleta, onde o alumínio a supera. Por isso os espelhos de telescópio são aluminizados e não prateados, apesar de a prata refletir melhor a luz visível.
Por que escurece?
Não é oxidação. A prata resiste ao oxigénio à temperatura ambiente sem dificuldade.
O culpado é o enxofre. O sulfureto de hidrogénio e outros compostos sulfurados presentes em vestígios no ar reagem com a superfície:
2 Ag + H₂S → Ag₂S + H₂
O sulfureto de prata é negro e adere firmemente. A velocidade depende da concentração de enxofre, e por isso a prata escurece mais depressa perto de fontes industriais, em contacto com lã ou borracha, ou guardada junto a ovos e cebolas.
Polir a prata elimina o sulfureto mas também arranca metal: repetir a operação durante anos adelgaça apreciavelmente uma peça.
Existe um método melhor. Coloca-se a peça sobre folha de alumínio em água quente com bicarbonato. O alumínio, muito mais redutor, cede eletrões ao sulfureto de prata:
3 Ag₂S + 2 Al → 6 Ag + Al₂S₃
A prata volta ao seu estado metálico sobre a própria peça e o enxofre migra para o alumínio. Não se perde prata nenhuma. O bicarbonato faz de eletrólito e ajuda a quebrar a camada de óxido do alumínio.
Como funcionava a fotografia química?
Sobre uma única propriedade: os halogenetos de prata decompõem-se com a luz.
A emulsão fotográfica contém microcristais de brometo de prata dispersos em gelatina. Quando um fotão incide sobre um cristal, liberta um eletrão que reduz um ião Ag⁺ a prata metálica. Bastam alguns átomos de prata por cristal.
Esse agregado minúsculo é a imagem latente, invisível. A revelação amplifica-a: o revelador é um redutor que atua preferencialmente sobre os cristais que já contêm prata metálica, e converte-os por inteiro. A amplificação é da ordem de mil milhões de vezes, e é o que torna possível a fotografia com luz normal.
A fixação dissolve depois os cristais não expostos, para que a imagem não continue a escurecer.
Esta química dominou o registo visual de 1839 até ao início do século XXI. No seu apogeu, a fotografia consumia perto de metade da prata mundial. A transição para o digital foi tão rápida que a indústria da prata teve de se reorientar em menos de quinze anos.
Em que se usa hoje?
O maior consumo industrial atual é a fotovoltaica.
Uma célula solar de silício precisa de conduzir a corrente gerada até aos terminais sem bloquear a luz. A solução é uma grelha fina de contactos impressa com pasta de prata sobre a face iluminada. A prata é escolhida pela sua condutividade e porque forma bom contacto óhmico com o silício.
Cada painel contém poucos gramas, mas a escala do desenvolvimento mundial fez deste uso o principal destino industrial do metal. A indústria trabalha em reduzir a quantidade por célula, porque o custo da prata é uma fração apreciável do custo do painel.
Outros usos importantes são a eletrónica, as soldaduras fortes, os espelhos, os catalisadores — a prata catalisa a oxidação do etileno a óxido de etileno, base da indústria do poliéster — e as aplicações biocidas.
De onde vem?
Boa parte da prata não é extraída de minas de prata.
Cerca de dois terços da produção mundial são subproduto da mineração de chumbo, zinco, cobre ou ouro. A prata acompanha esses metais nos sulfuretos e é recuperada durante a sua refinação, sobretudo nas lamas anódicas da eletrólise do cobre.
Essa dependência tem uma consequência económica: a oferta de prata responde pouco ao preço da prata. Se o preço sobe, não se abrem minas de prata porque a maior parte depende de decisões tomadas pelo cobre ou pelo zinco.
O México é o maior produtor desde a época colonial, seguido pelo Peru, a China e o Chile. A mina de Potosí, na atual Bolívia, produziu desde 1545 uma quantidade de prata que alterou a economia monetária da Europa e da Ásia, provocando em Espanha uma inflação prolongada que os economistas da época não souberam explicar.
Essa prata não ficou na Europa. Boa parte seguiu para a China através de Manila, porque a dinastia Ming tinha adotado a prata como base fiscal e a pagava a preço mais alto do que qualquer mercado europeu. O galeão de Manila ligou Acapulco a Manila durante dois séculos e meio, e foi provavelmente a primeira rota comercial verdadeiramente global.
⚠️ A reciclagem da prata é menos eficiente do que a do ouro, precisamente porque muita está dispersa em quantidades minúsculas: alguns gramas por painel solar, miligramas por contacto elétrico. Recuperá-la exige processar volumes grandes de sucata para pouco metal, e a fração reciclada ronda apenas um quarto da procura anual.