Tabela periódica

Urânio (U)

Howard Birdsong Compilado a partir de fontes primárias IUPAC, NIST e PubChem

O urânio é o elemento 92, de símbolo U, configuração eletrónica [Rn] 5f³ 6d¹ 7s² e massa atómica padrão 238,02891 u. Todos os seus isótopos são radioativos; o urânio 238, com um período de 4 468 milhões de anos, constitui 99,27 % do urânio natural.

Por que só um isótopo serve para a fissão?

O urânio natural tem três isótopos: urânio 238, com 99,27 %; urânio 235, com 0,72 %; e um vestígio de urânio 234.

Só o 235 é físsil com neutrões lentos, e a razão está na paridade de neutrões.

O urânio 235 tem 143 neutrões, um número ímpar. Ao capturar mais um forma urânio 236 com 144, um número par, e os núcleos com neutrões emparelhados estão mais ligados. Essa energia de emparelhamento liberta-se ao formar-se o núcleo composto e basta por si só para superar a barreira de fissão: o núcleo parte-se mesmo que o neutrão incidente chegue quase sem energia.

O urânio 238 tem 146 neutrões, um número par. Ao capturar um forma um número ímpar e não ganha essa energia extra. Precisa que o neutrão traga mais de um megaeletrão-volt para sofrer fissão, e num reator os neutrões são deliberadamente travados abaixo disso.

Daí que os 0,72 % sejam o número que governa toda a indústria nuclear.

⚠️ O urânio 238 não é inútil: ao capturar um neutrão converte-se em plutónio 239, que é físsil. Esse processo ocorre continuamente dentro de um reator, e no final do ciclo uma parte apreciável da energia produzida provém de plutónio formado no próprio local.

Por que é tão difícil enriquecê-lo?

Porque os dois isótopos são quimicamente idênticos. Têm 92 eletrões, formam os mesmos compostos e reagem da mesma maneira. Nenhuma separação química funciona.

A única diferença aproveitável é a massa: 235 contra 238, 1,3 %.

O método atual é a centrifugação. O urânio é convertido em hexafluoreto, UF₆, único composto de urânio que é gasoso a temperatura moderada. O gás é introduzido em cilindros que giram a dezenas de milhares de rotações por minuto; as moléculas mais pesadas deslocam-se ligeiramente mais para a parede.

O efeito por centrifugadora é minúsculo. Para passar de 0,72 % a 4 % são precisas milhares de máquinas ligadas em cascata, e para chegar aos 90 % muitas mais.

Essa dificuldade é a principal barreira técnica à proliferação nuclear, e a razão de os programas de enriquecimento estarem sujeitos a vigilância internacional. O fluoreto foi escolhido além disso porque o flúor tem um único isótopo estável: qualquer outro elemento acrescentaria a sua própria variação de massa e arruinaria a separação.

O método anterior, a difusão gasosa, consumia quantidades enormes de eletricidade e foi abandonado.

O que aconteceu em Oklo?

Em 1972, uma análise de rotina de urânio proveniente de uma mina do Gabão mostrou 0,717 % de urânio 235 em vez dos 0,720 % universais. A diferença era pequena mas impossível: a composição isotópica do urânio natural é constante em toda a Terra e nos meteoritos.

A explicação acabou por ser que aquele urânio já tinha sido usado.

Há cerca de 1 700 milhões de anos, o urânio 235 — cujo período de 704 milhões de anos é muito mais curto do que o do 238 — representava perto de 3 % do urânio natural, a mesma proporção que hoje se procura artificialmente num reator.

Em Oklo, um jazigo excecionalmente rico foi infiltrado por água subterrânea. A água atuou como moderador, travando os neutrões o suficiente para sustentar uma reação em cadeia.

O sistema autorregulou-se. Quando a reação aquecia a água até a fazer ferver, perdia-se o moderador e a reação parava; ao arrefecer e voltar a água, recomeçava. As análises sugerem ciclos de cerca de três horas, mantidos de forma intermitente durante centenas de milhares de anos.

⚠️ Oklo é também uma experiência natural sobre armazenamento de resíduos: os produtos de fissão ali gerados quase não migraram em dois mil milhões de anos, o que fornece informação sobre o confinamento geológico a muito longo prazo.

Que relação tem com o calor da Terra?

O interior do planeta está quente por dois motivos: o calor residual da sua formação e a desintegração radioativa.

A contribuição radioativa provém quase inteiramente do urânio 238, do tório 232 e do potássio 40, os três isótopos com períodos comparáveis à idade da Terra. Os de vida curta esgotaram-se há muito.

O fluxo de calor geotérmico total ronda os 47 terawatts, e as estimativas atribuem aproximadamente metade à desintegração radioativa.

Sem essa fonte contínua, o interior ter-se-ia arrefecido até solidificar. Sem manto convectivo não há tetónica de placas, e sem núcleo externo líquido não há dínamo nem campo magnético.

A deteção de geoneutrinos — antineutrinos emitidos nas desintegrações beta do interior terrestre — por detetores como o KamLAND e o Borexino permitiu medir diretamente essa contribuição, confirmando a ordem de grandeza.

Como se extrai e em que estado está a indústria?

O urânio está disperso na crosta a cerca de 2,7 partes por milhão, mais abundante do que a prata ou o mercúrio. Os jazigos exploráveis têm teores que vão de 0,1 % até, excecionalmente, mais de 15 % na bacia de Athabasca, no Canadá.

O Cazaquistão é hoje o maior produtor, seguido pelo Canadá, pela Namíbia e pela Austrália. Boa parte da produção cazaque emprega lixiviação in situ: bombeia-se solução para o jazigo, dissolve-se o urânio e recupera-se à superfície sem escavar.

O urânio é processado até se obter concentrado — o chamado bolo amarelo —, convertido em hexafluoreto, enriquecido, reconvertido em óxido e fabricado em pastilhas cerâmicas empilhadas dentro de bainhas metálicas.

⚠️ Uma pastilha de cerca de sete gramas contém aproximadamente a energia de uma tonelada de carvão. Essa densidade energética é a razão de a fissão continuar relevante apesar dos problemas de resíduos, de custo de capital e de perceção pública que arrasta desde Chernobil e Fukushima.

Dados essenciais

Z
92
Atomic weight
238.03 u
Category
actinídeo
State at 298 K
Solid
Occurrence
primordial, radioactive
Discovered
1789
CAS
7440-61-1

Propriedades medidas

PropertyValueSource
Electronegativity 1.38 National Center for Biotechnology Information (NIH)
Melting point 1,408 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Boiling point 4,404 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Density stp 18.95 g/cm³ National Center for Biotechnology Information (NIH)
Atomic radius empirical 240 pm National Center for Biotechnology Information (NIH)
Ionization energy 1st 597.6 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)

Configuração eletrónica

2 8 18 32 21 9 2 U
Noble gas notation
[Rn] 5f³ 6d¹ 7s²
Full notation
1s² 2s² 2p⁶ 3s² 3p⁶ 3d¹⁰ 4s² 4p⁶ 4d¹⁰ 4f¹⁴ 5s² 5p⁶ 5d¹⁰ 5f³ 6s² 6p⁶ 6d¹ 7s²
Electrons per shell
2, 8, 18, 32, 21, 9, 2

Isótopos

Perguntas frequentes

O que significa enriquecer urânio?

Aumentar a proporção de urânio 235, o único isótopo natural que sofre fissão com neutrões lentos. No urânio natural representa apenas 0,72 %. Um reator de água leve precisa de entre 3 e 5 %; uma arma, mais de 90 %. A separação é difícil porque ambos os isótopos são quimicamente idênticos e diferem 1,3 % em massa: são precisas milhares de centrifugadoras em cascata.

O que foi o reator natural de Oklo?

Um conjunto de reações em cadeia que se sustentaram por si próprias num jazigo do Gabão há cerca de 1 700 milhões de anos. Nessa altura o urânio 235 representava perto de 3 % do urânio natural, percentagem suficiente para a criticidade com água subterrânea como moderador. Funcionou de forma intermitente durante centenas de milhares de anos. Foi descoberto em 1972 porque uma amostra tinha menos urânio 235 do que devia.

Por que é que o urânio empobrecido é tão denso e para que serve?

A sua densidade é de 19,1 g/cm³, quase a do ouro. O urânio empobrecido é o resíduo do enriquecimento, com menos de 0,3 % de urânio 235, e a sua radioatividade é inferior à do urânio natural. Usa-se como blindagem contra radiação, como contrapeso em aeronaves e em munições perfurantes, onde a sua densidade e a tendência a afiar-se ao penetrar o tornam eficaz. O seu emprego militar é objeto de controvérsia pela toxicidade química.

De onde vem o calor interno da Terra?

Aproximadamente metade provém da desintegração radioativa de urânio, tório e potássio 40 no manto e na crosta; o restante é calor residual da formação do planeta. Sem essa fonte contínua, o interior ter-se-ia arrefecido e solidificado há muito, travando a tetónica de placas e o campo magnético.

Fontes