Um gás que sai da rocha
O urânio está presente em quase todos os solos e rochas — algumas partes por milhão, mais no granito, nos xistos e nos fosfatos. Desintegra-se em catorze passos até ao chumbo, e um desses passos produz radão 222.
Todos os outros membros da cadeia são sólidos, presos ao grão mineral onde se formaram. O radão é um gás nobre. Escapa.
Circula pelos poros e fraturas do terreno, e onde o terreno encontra um edifício, encontra entrada. Uma casa aquecida está em ligeira depressão em relação ao solo: aspira ar do terreno pelas fendas da laje, pelas passagens de tubagens e por caixas de esgoto não seladas.
⚠️ Ao ar livre não tem consequências — o radão dilui-se até alguns becquerels por metro cúbico. No interior acumula-se, e numa cave mal ventilada sobre terreno granítico pode atingir centenas ou milhares.
Porque é que um gás inerte é perigoso
O radão não reage com nada e não fica no corpo. Inspira-se e na maior parte expira-se.
O mal vem daquilo em que se transforma. Com um período de 3,8 dias, parte do radão que está no pulmão desintegra-se ali mesmo — em polónio 218, e depois chumbo, bismuto e polónio 214.
São metais sólidos. Agarram-se ao pó e aos aerossóis do ar, depositam-se na parede dos brônquios e emitem aí partículas alfa a muito curta distância, num tecido que não se consegue livrar delas.
⚠️ As partículas alfa percorrem poucos centímetros no ar e não atravessam a pele, o que as torna inofensivas fora do corpo e temíveis lá dentro. Toda a sua energia se deposita num percurso muito curto através das células que atravessam.
O norte granítico
O radão segue as rochas, não as fronteiras. Em Portugal isso desenha um mapa bastante claro: o norte e o centro interior — Minho, Trás-os-Montes, as Beiras, a região da Guarda. Os maciços graníticos.
Os valores medidos nalgumas dessas zonas colocam Portugal entre os países europeus com maior exposição residencial.
⚠️ Há um agravante local. Os antigos couros mineiros de urânio da Beira Alta, incluindo a Urgeiriça, deixaram escombreiras e terrenos remexidos que constituem pontos de atenção próprios, além do fundo geológico normal.
O regime jurídico de proteção radiológica identifica zonas prioritárias, e o Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios exige medidas de proteção em construção nova nessas áreas — barreira, caixa de ar ventilada ou sistema de extração.
Medir, porque a geologia não chega
O potencial geológico é apenas uma indicação. Duas casas vizinhas podem diferir por um fator de dez consoante a forma como foram construídas, o estado da laje e a ventilação.
O resultado do vizinho nada diz do seu. É preciso medir.
Um detetor passivo deixado três meses na divisão habitada mais baixa custa pouco e dá um valor utilizável. É a etapa que toda a gente salta.
⚠️ Construir estanque para poupar energia agrava as coisas: menos renovação de ar significa que o que entra permanece mais tempo. É por isso que a prevenção do radão entrou nos regulamentos de construção de vários países ao mesmo tempo que as exigências de eficiência energética.
Em que assentam os números
As primeiras provas vêm dos mineiros de urânio, que trabalhavam em galerias mal ventiladas com concentrações altíssimas e desenvolviam cancro do pulmão muito acima da população em geral.
Extrapolar das minas para as habitações foi contestado durante anos — doses muito menores, exposições diferentes. A questão resolveu-se agrupando os estudos residenciais: treze europeus, sete norte-americanos, dois chineses, dezenas de milhares de casos entre todos.
Concordam. O risco cresce de forma aproximadamente linear com a exposição, sem limiar abaixo do qual desapareça.
⚠️ Radão e tabaco multiplicam-se em vez de se somarem. Um fumador que viva numa casa com muito radão corre um risco muito superior à soma dos dois, o que explica que a maioria das mortes atribuídas ao radão ocorra em fumadores e que as duas mensagens de saúde pública andem juntas.
Um tubo e um ventilador
A correção é mecânica e barata.
A despressurização sob laje consiste em furar o pavimento, descer um tubo até à camada de brita por baixo e colocar um ventilador na ponta, a funcionar em contínuo. O ventilador mantém o espaço sob a laje em ligeira depressão em relação à casa, pelo que o gás do solo sai pelo tubo e é lançado acima do telhado em vez de entrar nas divisões.
Reduz o radão interior entre 80 e 99 % pelo preço de um eletrodoméstico.
⚠️ Selar fendas ajuda muito menos do que se pensa. A diferença de pressão que empurra o gás continua lá, e ele arranja outro caminho. A selagem faz-se além do ventilador, não em vez dele.