Tabela periódica

Cloro (Cl)

Howard Birdsong Compilado a partir de fontes primárias IUPAC, NIST e PubChem

O cloro é o elemento 17, de símbolo Cl, configuração eletrónica [Ne] 3s² 3p⁵ e massa atómica padrão compreendida entre 35,446 e 35,457 u. É um gás amarelo-esverdeado, denso e tóxico, e um dos oxidantes mais usados da indústria.

Por que é que a sua massa atómica é 35,45?

Porque o cloro natural são dois elementos no mesmo frasco, falando em termos de massa.

O cloro 35 tem 18 neutrões e constitui cerca de 76 % do total. O cloro 37 tem 20 e forma os restantes 24 %. Ambos são estáveis e quimicamente indistinguíveis: têm 17 eletrões e reagem da mesma maneira.

A média ponderada, 0,76 × 34,969 + 0,24 × 36,966, dá aproximadamente 35,45. Nenhum átomo de cloro pesa isso; é uma média.

Este é o exemplo que quase todos os cursos usam para explicar por que as massas atómicas não são inteiras, e tem uma consequência prática visível.

Num espetrómetro de massa, qualquer composto com um átomo de cloro mostra dois picos separados por duas unidades, com intensidades em relação aproximada de 3:1. Com dois átomos de cloro aparecem três picos em relação 9:6:1. Essa assinatura permite contar os cloros de uma molécula desconhecida num relance.

Como desinfeta a água?

O cloro dissolvido em água reage com ela:

Cl₂ + H₂O  ⇌  HClO + HCl

O ácido hipocloroso resultante é o desinfetante real. É uma molécula pequena, neutra e sem carga, e essa neutralidade é o que é decisivo: atravessa a membrana lipídica de uma bactéria sem dificuldade.

Dentro da célula oxida grupos tiol das enzimas, danifica as proteínas de transporte e interfere com o ADN. A bactéria morre por acumulação de danos, não por um mecanismo único.

O ácido hipocloroso está em equilíbrio com o ião hipoclorito:

HClO  ⇌  H⁺ + ClO⁻

O ião não entra na célula porque a sua carga o impede, e é entre setenta e cem vezes menos eficaz. O equilíbrio depende do pH: abaixo de 7,5 domina a forma neutra e ativa; acima, o ião. Daí que as piscinas mantenham o pH entre 7,2 e 7,6, um compromisso entre eficácia desinfetante e conforto ocular.

⚠️ O cheiro característico de uma piscina não é cloro mas cloraminas, formadas quando o cloro reage com o suor e a ureia dos banhistas. Um cheiro forte indica água suja, não excesso de cloro.

A cloração da água potável, generalizada desde o início do século XX, é provavelmente a medida de saúde pública que mais vidas salvou na história.

O que aconteceu em Ypres em 1915?

A 22 de abril de 1915, o exército alemão libertou cerca de 168 toneladas de cloro a partir de garrafas alinhadas em frente às trincheiras aliadas perto de Ypres. O vento levou uma nuvem amarelo-esverdeada sobre as posições francesas e argelinas.

O cloro é duas vezes e meia mais denso do que o ar, pelo que se acumulou nas trincheiras em vez de se dispersar. Ao contacto com a humidade das mucosas forma ácido clorídrico e hipocloroso, que destroem o tecido pulmonar. As vítimas morrem afogadas nos seus próprios fluidos.

O ataque abriu uma brecha de vários quilómetros na frente, embora os alemães não a tivessem aproveitado: não tinham previsto o êxito nem dispunham de reservas.

Fritz Haber, o mesmo químico cujo processo de síntese de amoníaco alimenta hoje meia humanidade, dirigiu pessoalmente o programa. A sua mulher Clara Immerwahr, também química, suicidou-se poucos dias depois do ataque.

O cloro foi cedo ultrapassado pelo fosgénio e pelo gás mostarda, mais letais. Mas inaugurou a guerra química industrial, e o Protocolo de Genebra de 1925 foi escrito como resposta àquela experiência.

Como se produz industrialmente?

Por eletrólise de salmoura, no chamado processo cloro-soda:

2 NaCl + 2 H₂O  →  Cl₂ + H₂ + 2 NaOH

O cloro sai pelo ânodo, o hidrogénio pelo cátodo e fica hidróxido de sódio em solução. Os três produtos são valiosos, e essa é a particularidade económica do processo: não se pode fabricar cloro sem fabricar soda, nem o contrário.

A proporção está fixada pela estequiometria, e se o mercado procurar mais soda do que cloro, o produtor tem um problema. Esta rigidez condiciona toda a indústria química inorgânica.

A tecnologia evoluiu. As células de mercúrio, dominantes durante décadas, foram abandonadas pelas suas emissões; as de diafragma de amianto estão também em retirada. A tecnologia atual é a célula de membrana, com uma membrana polimérica que deixa passar iões sódio mas não cloreto.

O principal destino do cloro é o PVC. Seguem-se outros plásticos clorados, solventes, e a síntese de compostos orgânicos onde o cloro é usado como intermediário e não aparece no produto final: boa parte dos medicamentos passa por uma etapa clorada.

O que faz no corpo?

O ião cloreto é o anião mais abundante do líquido extracelular, e acompanha o sódio na regulação do volume e da pressão osmótica.

A sua função mais específica está no estômago. As células parietais da mucosa gástrica bombeiam iões hidrogénio para o lúmen do estômago e acompanham-nos de cloreto, produzindo ácido clorídrico numa concentração que leva o pH a valores entre 1,5 e 3,5.

Esse ácido desnatura as proteínas dos alimentos, ativa a pepsina e esteriliza boa parte do que é ingerido. A mucosa protege-se com uma camada de muco e bicarbonato; quando essa proteção falha aparece a úlcera.

O cloreto participa ainda no chamado desvio de cloreto nos glóbulos vermelhos, uma troca com bicarbonato que torna possível transportar dióxido de carbono desde os tecidos até ao pulmão.

⚠️ A fibrose quística é causada por mutações no gene CFTR, que codifica um canal de cloreto. Sem transporte adequado de cloreto, as secreções tornam-se espessas e obstruem os pulmões e o pâncreas. Uma doença grave causada por um único ião mal transportado.

Dados essenciais

Z
17
Atomic weight
35.45 u
Category
não metal reativo
State at 298 K
Gas
Occurrence
primordial
Discovered
1774

Propriedades medidas

PropertyValueSource
Electronegativity 3.16 National Center for Biotechnology Information (NIH)
Melting point 171.65 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Boiling point 239.11 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Density stp 0.003 g/cm³ National Center for Biotechnology Information (NIH)
Atomic radius empirical 175 pm National Center for Biotechnology Information (NIH)
Ionization energy 1st 1,251.2 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)
Electron affinity 349 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)

Configuração eletrónica

2 8 7 Cl
Noble gas notation
[Ne] 3s² 3p⁵
Full notation
1s² 2s² 2p⁶ 3s² 3p⁵
Electrons per shell
2, 8, 7

Isótopos

Perguntas frequentes

Por que é que a massa atómica do cloro é 35,45 e não um número inteiro?

Porque o cloro natural é uma mistura de dois isótopos estáveis em proporção muito desigual: cloro 35, cerca de 76 %, e cloro 37, os restantes 24 %. A média ponderada cai entre ambos. É o exemplo clássico usado para explicar por que as massas atómicas não são inteiras, e num espetrómetro de massa a assinatura de um composto clorado mostra picos separados por duas unidades com essa proporção característica.

Por que é que o cloro desinfeta a água?

Ao dissolver-se forma ácido hipocloroso, HClO, uma molécula pequena e sem carga que atravessa a membrana bacteriana. Lá dentro, oxida enzimas e ácidos nucleicos. O ião hipoclorito, ClO⁻, também atua mas muito pior porque a sua carga o impede de entrar. Por isso a desinfeção é mais eficaz a pH ligeiramente ácido, onde predomina a forma neutra.

É perigoso misturar lixívia com amoníaco ou com vinagre?

Sim, e são dois perigos distintos. Com amoníaco formam-se cloraminas, gases irritantes que danificam as vias respiratórias. Com um ácido como o vinagre ou os desincrustantes, a lixívia liberta cloro gasoso, que é diretamente tóxico. Nenhuma das misturas melhora a limpeza: a lixívia sozinha já é um oxidante potente.

É verdade que o PVC contém cloro?

Sim, cerca de 57 % da sua massa. O policloreto de vinilo é o destino de uma fração importante do cloro industrial. Essa composição explica as suas vantagens — é autoextinguível, porque o cloro libertado interrompe a combustão — e os seus problemas, já que ao arder de forma incompleta pode gerar cloreto de hidrogénio e vestígios de dioxinas.

Fontes