Tabela periódica

Fósforo (P)

Howard Birdsong Compilado a partir de fontes primárias IUPAC, NIST e PubChem

O fósforo é o elemento 15, de símbolo P, configuração eletrónica [Ne] 3s² 3p³ e massa atómica padrão 30,973761998 u. Tem um único isótopo estável e várias formas alotrópicas de propriedades radicalmente distintas: a branca é pirofórica e tóxica, a vermelha é estável e inofensiva.

Como se descobriu a destilar urina?

Em 1669, o alquimista de Hamburgo Hennig Brand procurava a pedra filosofal. O seu raciocínio partia da cor: a urina é dourada, logo talvez contenha ouro.

Reuniu uma quantidade considerável — as crónicas falam de mais de mil litros —, deixou-a fermentar durante dias, evaporou-a até obter um resíduo pastoso e aqueceu-o ao rubro numa retorta. Da destilação saiu um vapor branco que condensou sob água numa substância cerosa.

A substância brilhava no escuro. Brand chamou-lhe fósforo, do grego phosphoros, portador de luz.

Não era ouro, mas era o primeiro elemento descoberto em tempos históricos por uma pessoa identificável. O ouro, o ferro ou o enxofre conheciam-se desde a antiguidade sem descobridor.

O rendimento era ínfimo e a fonte explica-o: a urina contém fosfato proveniente do metabolismo ósseo. Décadas mais tarde verificou-se que os ossos eram matéria-prima muito melhor, e no século XIX passou-se à rocha fosfática.

⚠️ O brilho que deu nome ao elemento não é fosforescência no sentido técnico moderno. É quimioluminescência: o fósforo branco oxida-se lentamente na presença de ar húmido e a reação emite luz.

O que distingue o fósforo branco do vermelho?

A geometria, e as consequências são extremas.

O fósforo branco consiste em moléculas P₄ tetraédricas. Cada átomo liga-se aos outros três, o que força ângulos de ligação de 60 graus. O ângulo natural para as orbitais envolvidas estaria perto dos 100 graus, pelo que a molécula está muito tensionada.

Essa tensão armazena energia e torna-o extraordinariamente reativo. Inflama-se espontaneamente no ar acima de cerca de 30 °C, motivo pelo qual se armazena sob água. É além disso muito tóxico: a dose letal ronda o miligrama por quilograma, e provoca necrose óssea.

O fósforo vermelho obtém-se aquecendo o branco a cerca de 250 °C na ausência de ar. Os tetraedros abrem-se e ligam-se formando cadeias poliméricas. Sem tensão e sem moléculas discretas, o material é estável ao ar, não arde espontaneamente e não é tóxico por ingestão.

Existem ainda o fósforo negro, a forma termodinamicamente mais estável, com estrutura lamelar parecida com a da grafite e semicondutora, e o fósforo violeta, outra variante polimérica.

Que um mesmo elemento passe de veneno pirofórico a material de uso doméstico através de uma mudança de estrutura é um dos exemplos mais claros de que a química não depende apenas de que átomos existem, mas de como estão dispostos.

Por que é que a vida depende do fosfato?

Porque o grupo PO₄³⁻ faz algo que nenhum outro grupo funcional consegue tão bem: unir duas coisas de forma estável e ao mesmo tempo desmontável.

No ADN e no ARN, os fosfatos formam as ligações fosfodiéster que unem um açúcar ao seguinte. Cada fosfato conserva uma carga negativa depois de formar as duas ligações, o que mantém a molécula solúvel e, sobretudo, a retém dentro da membrana celular: uma molécula carregada não atravessa uma bicamada lipídica.

No ATP, três fosfatos encadeiam-se. As suas cargas negativas repelem-se, pelo que quebrar a última ligação liberta energia aproveitável. O ATP não é um armazém de energia a longo prazo mas uma moeda de troca: uma célula humana recicla o seu próprio peso em ATP ao longo de um dia.

Nas membranas, os fosfolípidos têm uma cabeça de fosfato hidrófila e duas caudas hidrocarbonadas hidrófobas. Essa dualidade faz com que se organizem espontaneamente em bicamadas.

Na regulação, acrescentar um fosfato a uma proteína muda a sua forma e a sua atividade. As cinases fosforilam e as fosfatases desfosforilam; esse interruptor governa boa parte da sinalização celular.

Como funcionam realmente os fósforos?

O fósforo moderno separa os dois ingredientes da reação, e essa separação é o que o torna seguro.

A cabeça contém clorato de potássio como oxidante, enxofre ou um sulfureto como combustível, vidro moído como abrasivo e um aglutinante. Por si só não se acende com facilidade.

A faixa da caixa contém fósforo vermelho misturado com vidro moído. Ao riscar, o atrito gera calor suficiente para converter localmente algum fósforo vermelho em fósforo branco, que se inflama de imediato. Essa faísca acende o clorato da cabeça, e a reação propaga-se à madeira.

Os fósforos anteriores a 1844 levavam fósforo branco na própria cabeça. Acendiam-se ao serem riscados contra qualquer superfície, o que era cómodo e perigoso, e sobretudo adoeciam quem os fabricava. A necrose mandibular por exposição ao fósforo branco, conhecida como phossy jaw, afetou gravemente as operárias das fábricas britânicas e provocou a greve das fosforeiras de Londres em 1888. Uma convenção internacional proibiu o fósforo branco em fósforos em 1906.

Por que preocupa o abastecimento?

Porque o fósforo não tem substituto nem fonte renovável.

O azoto agrícola pode ser fabricado a partir do ar pelo Haber-Bosch. O fósforo não: não há fósforo na atmosfera. Todo o que se usa provém de rocha fosfática extraída de minas, um recurso finito.

As reservas estão além disso muito concentradas. Marrocos e o Sara Ocidental albergam cerca de 70 % das reservas mundiais identificadas, seguidos a grande distância pela China, o Egito e a Argélia. Essa concentração é maior do que a do petróleo no seu momento de concentração máxima.

O fósforo aplicado como fertilizante também não se recupera. Uma parte é absorvida pela cultura e chega à mesa; o resto é lavado para rios e lagos, onde contribui para a eutrofização juntamente com o azoto. O que chega à alimentação acaba em águas residuais.

Daí o interesse crescente pela recuperação de fosfato em estações de tratamento, onde pode ser precipitado como estruvite e devolvido ao campo. É hoje uma tecnologia madura mas de implantação desigual, porque o fosfato mineral continua a ser mais barato.

Dados essenciais

Z
15
Atomic weight
30.974 u
Category
não metal reativo
State at 298 K
Solid
Occurrence
primordial
Discovered
1669
CAS
7723-14-0

Propriedades medidas

PropertyValueSource
Electronegativity 2.19 National Center for Biotechnology Information (NIH)
Melting point 317.3 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Boiling point 553.65 K National Center for Biotechnology Information (NIH)
Density stp 1.82 g/cm³ National Center for Biotechnology Information (NIH)
Atomic radius empirical 180 pm National Center for Biotechnology Information (NIH)
Ionization energy 1st 1,011.8 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)
Electron affinity 72 kJ/mol National Center for Biotechnology Information (NIH)

Configuração eletrónica

2 8 5 P
Noble gas notation
[Ne] 3s² 3p³
Full notation
1s² 2s² 2p⁶ 3s² 3p³
Electrons per shell
2, 8, 5

Isótopos

Perguntas frequentes

Por que é que o fósforo branco arde sozinho e o vermelho não?

Pela estrutura. O fósforo branco é formado por moléculas tetraédricas P₄ com ângulos de ligação de 60 graus, muito tensionados, o que o torna instável e reativo: inflama-se espontaneamente por volta dos 30 °C. O fósforo vermelho é uma rede polimérica na qual esses tetraedros se abriram e se uniram entre si, sem tensão e sem reatividade espontânea. É o mesmo elemento com duas arquiteturas.

Há fósforo nas cabeças dos fósforos de segurança?

Nos fósforos de segurança modernos não. A cabeça contém clorato de potássio e enxofre; o fósforo vermelho está na faixa rugosa da caixa. Ao riscar, o atrito converte localmente algum fósforo vermelho em branco, que se inflama e acende a cabeça. Separar os dois componentes foi a inovação que tornou os fósforos seguros, por volta de 1844.

Por que é que o fósforo é essencial à vida?

Porque o grupo fosfato é o conector universal da bioquímica. A cadeia principal do ADN e do ARN está unida por ligações fosfodiéster. O ATP armazena e transfere energia em ligações entre fosfatos. As membranas celulares constroem-se com fosfolípidos. E a regulação de grande parte das proteínas faz-se acrescentando ou retirando fosfatos. Nenhum outro elemento cumpre essas funções.

É verdade que o fósforo está a esgotar-se?

As reservas de rocha fosfática são finitas e estão muito concentradas geograficamente: Marrocos e o Sara Ocidental albergam cerca de 70 % das reservas mundiais identificadas. Ao contrário do azoto, o fósforo não pode ser fixado do ar. As estimativas sobre quando escasseará variam muito, mas o problema estrutural — recurso não renovável, sem substituto, geograficamente concentrado — não se discute.

Fontes